Quinta, 03 Outubro 2019 14:01

O vilão bem educado - Coluna do jornalista Kennedy Lacerda

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Quinta-feira, 3 de outubro de 2019
O vilão bem educado

Não sei se por curiosidade ou completo interesse em co-nhecer as “entre linhas” do poder, li e estou relendo o agora famoso livro “Nada menos que tudo” escrito pelo ex procurador geral da república, Rodrigo Janot.

Em suas 255 páginas, Rodrigo Janot narra passagens que de certa forma, não traz nenhuma grande surpresa para quem tem acompanhado do esse imbróglio que virou a Lava Jato, porém, existem trechos de sua narrativa em que infelizmente mais um parlamentar de Roraima apare-ce como protagonista do maior escândalo da história polí-tica do Brasil.

É claro que estamos falando do ex senador Romero Jucá, personagem perene das histórias do poder, Jucá é lem-brado em diversas passagens do livro de Janot.

”A ideia era relatar cada fato da forma mais objetiva possível e deixar que o leitor fizesse seu próprio juízo de valor. No futuro, provavelmente aparecerão heróis retroativos para explicar como foram e como deveriam ter sido as investigações. De antemão, eu ofereço o meu ponto de vista. Aqui estão relatos pessoais sobre marchas e contramarchas de investigações sobre políticos como Michel Temer, Eduardo Cunha, Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, Aécio Neves, Renan Calheiros, José Sarney, Fernando Collor, Romero Jucá e José Serra, entre outros personagens marcantes da vida nacional.”

Sempre ligado aos grandes grupos políticos a nível nacio-nal, Jucá trafegava com facilidade pelos bastidores dos três poderes, não é surpresa que seu nome aparecesse em meio a todo esse lamaçal.

Janot relata o que seria um dos atos mais corajosos de sua administração, o pedido de prisão de diversos políticos, inclusive claro, de Romero Jucá.

 “Em maio, um mês depois do afastamento de Dilma, em meio à indignação cívica, eu pedi a prisão do ex-presidente José Sarney, do presidente do Senado, Renan Calheiros, e do senador Romero Jucá, por obstrução à Lava Jato e pela modesta acusação de chefiarem um grupo que, em dez anos, teria recebido mais de R$ 100 milhões de propina da Transpetro, uma subsidiária da Petrobras.”

É de conhecimento público que o STF não concedeu autorização para se efetuar as prisões solicitadas por Janot, principalmente para todos aqueles que eram detentores do famigerado foro privi-legiado, mas como alguns dos envolvidos que não conseguiram se reeleger (como é o caso de Jucá), é aguardado que esta me-dida seja acatada nos desenrolar do processo.

“Estava claro que a Lava Jato esbarrara numa muralha com os nomes de Sarney, Calheiros e Jucá. Não era necessário nos olharmos no espelho para ver nosso nariz quebrado. A Lava Jato, que havia tocado em vários nichos de poder nos seus dois primeiros anos, tinha chegado aos donos do poder, e o resultado não poderia ser outro senão um pouco mais do mesmo ciclo histórico de impunidade, que insiste em sobreviver no país desde as capitanias hereditárias.”

O que não é de se espantar, é a deferência que Janot faz ao comportamento de Jucá, afinal não foi a toa que o ex senador conseguiu ser líder do governo de três governos completamente distintos.

Dono de uma oratória invejável, Jucá sempre soube trilhar nos corredores do poder, mas como também ficou claro na narrativa de Janot, ele sabia onde e com quem deveria se posicionar.

“O mais articulado do grupo era, sem dúvida, o senador Romero Jucá, que impressionava pelo profissionalismo e pela educação. Depois de assumir a PGR, tive alguns encontros com ele para tratar do orçamento do Ministério Público – ele foi relator do Orçamento da União no Congresso. A despeito de ser alvo de vários inquéritos da Procuradoria-Geral, Jucá nunca me hostilizou e sempre conduziu o assunto de forma institucional. Não resvalava para o “toma lá, dá cá” e respeitava os acordos cumpridos na base do fio do bigode. A partir desses encontros, entendi por que Jucá se tornara uma espécie de sempiterno líder do governo no Congresso – de todos os presidentes recentes, de Fernando Henrique Cardoso a Dilma Rousseff.”

Apesar de todo esse desempenho, Jucá nunca conseguiu realizar seu maior sonho, de ser ministro de estado, indicado por três vezes, foi obrigado a renunciar sempre por estar envolvido com algum escândalo.