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Quinta, 02 Abril 2020 14:07

ENTREVISTA: Denarium afirma que Bolsonaro acerta ao equiparar economia e saúde.

Escrito por Peronico

O Blog reproduz hoje (2) na íntegra uma extensa entrevista do governador de Roraima, Antonio Denarium (sem partido), concedida ao jornal Folha de S. Paulo.

Fiel escudeiro de primeira hora de Jair Bolsonaro, Denarium defende o presidente das críticas de que tem sido alvo por seus discursos nos quais relativiza a importância do isolamento social no combate ao coronavírus.

Para o pecuarista, que recentemente deixou o PSL para acompanhar
Bolsonaro no partido que tenta fundar, a Aliança pelo Brasil, o presidente
acerta ao equilibrar em seus discursos a preocupação com as consequências para
a saúde pública e com o impacto econômico.

"É uma conta que tem que fechar dos dois lados, produção e
saúde", afirma, em entrevista à Folha.

Cada vez mais sozinho na turma dos governadores que seguem ao lado do
presidente, ele não vê motivo para abandonar o capitão reformado. "Vejo
nele um homem honesto e trabalhador, sem denúncias de corrupção."

Em Roraima, estado com cerca de 600 mil habitantes, Denarium tem liberado aos poucos o comércio. Desde o final da semana passada, no embalo do movimento de incentivo da retomada dos comércios promovido por Bolsonaro, liberou serviços essenciais, como postos de gasolina e supermercados, e atividades por meio de delivery e drive thru.

Até o momento há 22 casos confirmados de contaminação pelo novo
coronavírus no estado da região Norte. "Tenho que aliar desenvolvimento
econômico e a preservação da vida da população", completa.

O sr. é um dos poucos governadores que seguem como apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. O que tem achado da postura dele na administração da crise do coronavírus? 

O presidente tem uma personalidade muito forte. Ele é autêntico com o raciocínio dele, fala o que pensa. A postura dele tem mudado, assim como o comportamento e o entendimento quanto à orientação médica da OMS.

Entendo o ponto de vista dele, muito preocupado com a crise econômica, e
além do mais está preocupado com a vida das pessoas. Muitas vezes a fome mata
mais gente que o coronavírus. Ele está preocupado com o colapso financeiro e de
precisar muitos anos para recuperação. Continuo do lado do presidente e fazendo
a minha parte em Roraima, preocupado com a vida das pessoas e com a parte
econômica.

Assumi o estado com quatro meses de salários atrasados, greve das
polícias, todas as contas bloqueadas. Desde fevereiro de 2019 que pago a folha
de pagamento dos servidores dentro do mês.

Somos o único estado do Brasil que vai antecipar a primeira parcela do
13° salário. Agora a arrecadação do estado caiu 50% com a crise do coronavírus.
Se a gente não arrecadar, em maio ou junho já não vou mais pagar em dia.

Como está funcionando o comércio em Roraima? 

Liberamos apenas as atividades essenciais, como posto de gasolina e supermercado. Estão funcionando apenas em esquema de drive thru e delivery, com instruções para fornecimento de álcool em gel, distância entre pessoas, sem formar aglomerações. Os restaurantes que estão funcionando não têm salão, só pode marmitex. É uma reabertura parcial. Atividades como cabeleireiro, academia, lojas de roupas, que demandam contato físico, não foram liberadas.

O sistema de saúde de Roraima está preparado para um aumento de demanda, caso necessário? 

No nosso hospital geral, temos 40 leitos de UTI. Já contratamos um hospital particular com mais 70, 80 leitos, sendo 50 deles de UTI. Contratamos mais 40 leitos de retaguarda, de maternidade, para atender mulheres. Fizemos um acordo de cooperação técnica com o Exército. Criamos com eles a área de proteção e cuidados, para atender brasileiros e estrangeiros.

Está sendo construída a estrutura do hospital de campanha, que terá até
1.200 leitos, sendo 80 leitos de UTI. Essa estrutura será administrada em
parceria entre Exército e governo. Também estamos colocando no nosso estádio
Canarinho 80 leitos de retaguarda. É um estádio novo, inaugurei há um mês.

Como o sr. vê essa troca de farpas entre o presidente e os governadores? 

Não é saudável para o Brasil, em um momento de crise, ter conflitos
políticos. Agora é hora da união, de esquecer o problema político e as
ideologias políticas e se juntar para um objetivo só: restabelecer a saúde da
população no enfrentamento do coronavírus. Quando acabar isso aí a gente pensa
em eleição para prefeito e para governador e para presidente. Não é o momento
de ter conflito político por ideologia política. A briga política não vai
melhorar a vida da população. O que tenho conversado com os governadores é a
harmonia.

O sr. acha que a briga tem relação com eleições? 

Vamos dizer que é uma briga por causa de ideologia política. Tem um
grupo que trabalha pela saúde. Tem outro que trabalha pela economia. Tem outro
que olha os dois. E tem outro que quer ver o circo pegar fogo.

Qual grupo quer ver o circo pegar fogo? 

Prefiro não fazer comentário.

O grupo de governadores que apoiava o presidente já foi maior.
Recentemente, João Doria (PSDB-SP), Wilson Witzel (PSC-RJ) e Ronaldo Caiado
(DEM-GO) romperam com ele. Por que o senhor continua como um dos últimos que
seguem Bolsonaro e defendem as diretrizes dele no combate ao coronavírus? 

Continuo apoiando porque vejo nele um homem honesto, trabalhador, está
combatendo as mazelas que aconteceram no Brasil durante anos. Não teve nenhuma
denúncia de corrupção até hoje. Estarei com ele até o fim.

Também em Roraima estou mudando a forma de trabalhar. Estamos aquecendo
a economia, o estado crescendo, pagando as contas em dia. Coloquei o estado
para funcionar. Tínhamos quatro meses de salários atrasados, resolvi tudo,
comecei a pagar em dia. Estou construindo estradas, pontes, construindo
hospitais e presídios novos, recuperando estradas vicinais, retomando obras
paradas. Estamos conseguindo trabalhar.

O presidente Bolsonaro está acabando com os entraves. A reforma da
Previdência, por exemplo, nenhum dos últimos presidentes havia conseguido.
Bolsonaro conseguiu. Temos que fazer a reforma administrativa e outra
tributária agora. Temos que pensar em trabalhar, produzir e desenvolver e, claro,
proteger a vida das pessoas.

Aqueles no grupo de risco, com doenças pré-existentes, não vão
trabalhar. Isolamento social total. Nas escolas, com aulas suspensas, não vão
estudar. Com isso, vamos diminuir significativamente a quantidade de pessoas
contaminadas. Estamos comprando 25 mil testes rápidos para coronavírus. Se com
eles eu conseguir identificar as pessoas que estão contaminadas, já vou isolar
logo e evitar contaminação. Tenho que aliar desenvolvimento econômico e a
preservação da vida da população.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, passa orientações de
interrupção de atividades e isolamento social. O presidente estimula o retorno
das pessoas às ruas. Essa diferença de posturas não te confunde na hora de
decidir que medidas tomar? 

No mundo inteiro, os presidentes da Itália, Espanha e Estados Unidos,
quando a crise estava chegando, nenhum deles acreditou que teria a proporção
que teve. Aquilo que passou ficou para trás. Quero ver o comportamento do
presidente agora para frente. As pessoas são seres vivos, têm capacidade de
discernimento.

A cada momento a pessoa vai mudando de comportamento e de atitude. De
repente, hoje, o presidente já vê diferente a situação da crise em relação à
semana passada. Vamos avaliar o comportamento de agora para frente. Tenho
certeza de que ele já está vendo de maneira diferente, e ele está certo de
olhar a parte econômica e a parte de saúde. É por isso que ele está estimulando
as pessoas fora dos grupos de risco a produzirem.

Eu, que estou pagando minhas contas em dia, daqui a 60 ou 90 dias já não
vou ter dinheiro pra pagar a folha de pagamentos. Não vou ter dinheiro também
para comprar medicamentos nem insumo para hospitais. Aí as pessoas vão começar
a morrer de diabetes, pressão alta, pancreatite, de problema cardíaco, porque
estarei falido, não vou ter dinheiro para comprar remédios.

Temos que fazer estabelecimento de produção com responsabilidade na
saúde. Tem que usar equipamentos de proteção e conscientizar a população, que
tem que fazer sua parte.

Temos que aliar produção e saúde. E se o Brasil não faz o plantio da
safra agora? Como vai ter alimento para a população comer? Vai faltar arroz,
feijão? Vai morrer de fome? É uma conta que tem que fechar dos dois lados,
produção e saúde, tem que achar o meio-termo.

O sr. tem uma estimativa do impacto econômico para o estado da crise do
coronavírus? 

A minha arrecadação deve perder aproximadamente R$ 50 milhões por mês.
Se ficar assim por 90 dias eu não vou conseguir pagar a folha de pagamentos.
Temos que manter o mínimo da atividade comercial. Com segurança. Sem dinheiro
não se faz nada.

Existe uma grande preocupação de contaminação das comunidades indígenas
pelo novo coronavírus. O que o governo de Roraima tem feito para protegê-las?
 

Já foi proibida pela Funai a entrada de pessoas brancas, digamos assim,
nas comunidades indígenas. O governo do estado está fazendo barreira sanitária
nas principais entradas para as comunidades indígenas. Temos orientado também
para que não venham para a cidade. Temos 275 escolas indígenas em comunidades
hoje. As aulas estão suspensas. Com a suspensão do transporte intermunicipal,
eles ficam impossibilitados de vir para a cidade.

Se houver algum tipo de contaminação em alguma comunidade indígena, vamos entrar imediatamente, isolar o local e colocar o hospital de campanha lá dentro para que não precisem vir para a cidade.

Tem uma comunidade volumosa de venezuelanos em Roraima. O que o governo do estado tem feito para envolvê-los na campanha de combate ao vírus? 

Há aproximadamente 100 mil venezuelanos vivendo em Roraima. Cerca de 7.000 deles ficam em 13 abrigos que temos para refugiados. Hoje está proibida a entrada e a saída dos abrigos. Todos os venezuelanos que apresentam sintoma de gripe saem para o isolamento para saber se é gripe ou se é coronavírus, e só voltam para lá depois do resultado.