Sexta, 13 Dezembro 2019 11:18

PANIS ET CIRCENSES

Escrito por Neimar Fernandes

Reescrevendo o mestre Torquato, quando a saga continua.Vespasiano, o imperador, em 22 de junho de 79 d.c., pouco antes de morrer, em carta ao filho Tito aconselhava-o a concluir a construção do Colosseum (Coliseu), que lhe daria “muitas alegrias e infinita memória”. Pois, entre um banheiro, um banco de escola ou um estádio, o povo preferia sentar-se nas arquibancadas deste.O conselho fundamentava-se na ideia de que seduzir a plebe com pão e circo era a melhor receita para diminuir a insatisfação popular contra os governantes. Tito acabou inaugurando o famoso anfiteatro, no centro de Roma, com cem dias de festa. Descortinava-se ali a era do panis et circensis, que consistia em proporcionar, naquela arena, spetáculos sangrentos entre gladiadores e distribuição gratuita de pão.Implicava alto custo para os cofres do Império, com elevação de impostos e economia destroçada, mas a prática populista emprestava enorme prestígio aos imperadores romanos. É sabido que os jogos, ao longo da História, funcionaram como verniz para lustrar a imagem de governantes. Hoje a estratégia para cooptar a simpatia das populações por meio das artes/artimanhas e do entretenimento continua a receber atenção de administradores públicos de todos os quadrantes. Ao escopo semântico – em que se agrupam as agruras sociais – adiciona-se uma estética de diferenciação, caracterizada pelas cores (verde, vermelho e preto, preto e branco, azul, amarelo canarinho), pelos símbolos (gavião, porco, urubu, galo, raposa, coelho, timbu, baleia, leão), pela vestimenta com os dizeres da moda, pelo estilo de andar, de pensar, de perambular em bandos.

E fechando o circuito, a espetacularização midiática, por meio da qual os torcedores podem ver nas telas da TV seus gestos, feições alegres ou crispadas de ódio e ouvir gritos de guerra. Esta semana mais um torcedor tombou vitima dessa ignomínia. Condenar as turbas com designativos de vândalos, bandidos, selvagens, adensar forças policiais em estádios, continuar a usar meios tradicionais, como punição a clubes, não conseguirão eliminar a violência das torcidas organizadas. Mais cedo ou mais tarde, os atos voltarão. O disciplinamento e a ordem hão de levar em conta a elevação de padrões comportamentais, ancorada no esforço de educação (reeducação) de torcedores fanáticos.

Não se trata de promover meras ações de marketing cultural – eventos festivos e associativos para alinhamento dos torcedores ao espírito do clube -, mas um amplo programa com o objetivo de compor um ideário voltado para engrandecer o espírito da democracia, com respeito aos princípios da ordem e da disciplina, que não devem ser incompatíveis com o entusiasmo das torcidas.

Difícil? Sim, ainda mais quando musculosos e truculentos lutadores, de ambos os sexos, travestidos de atletas sujam de sangue os pisos das arenas de MMA. Impossível? Não, vide a ordem e paz em que milhões de cidadãos ocuparam as ruas e avenidas de nossa nação buscando novos rumos. Atitude e determinação, duo imbatível.Nem Vespasiano nem Tito imaginariam que, um dia, o dístico panis et circensis seria acrescido de violentia. Fosse assim, o velho Coliseu não estaria em pé.