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2811 Fidel Castro o comandante cubano Foto Brasil 247Líder da Revolução Cubana e governante do país por 49 anos, Fidel Castro morreu na madrugada deste sábado (26/11), em Havana. Ele tinha 90 anos. A morte do “comandante”, como era chamado, foi anunciada pelo seu irmão e sucessor na presidência de Cuba, Raúl Castro, em pronunciamento na televisão estatal. "Em cumprimento da expressa vontade do companheiro Fidel, seus restos mortais serão cremados", afirmou Raúl, demonstrando emoção ao ler o breve comunicado.

Uma das figuras mais polarizadoras do século XX, Fidel Castro deixa um legado que será interpretado de acordo com a lente ideológica de cada um. Para a esquerda, ele foi uma inspiração, mostrando que era possível fazer uma revolução socialista e combater a influência dos EUA na América Latina. A criação de uma sociedade igualitária, e com serviços públicos de qualidade, também é considerado um feito por seus admiradores.

Na visão da direita, porém, Fidel foi um ditador que restringiu a liberdade de expressão no país, perseguiu desafetos e assassinou opositores ao regime. Ele também é acusado de barrar o acesso à modernidade aos 11,3 milhões de cubanos, que vivem com carros velhos, internet lenta e equipamentos obsoletos.

Formado em 1950, Fidel passa a advogar para os pobres, mas seu principal cliente foi ele mesmo. Em dezembro daquele ano, o recém-formado e seu amigo Enrique Benavides foram acusados de participar de protestos estudantis contra o governo. Responsável pela defesa dele e de Benavides, Fidel proferiu um apaixonado discurso, no qual citou o clássico manifesto J'accuse, do escritor francês Émile Zola. “Fidel estava estupendo, com uma oratória transbordante que cativou toda a sala”, recordou o amigo em 2012. A argumentação foi eficaz, e os jovens foram absolvidos.

INFLUÊNCIA PARA LATINOS - A imagem de Fidel Castro para a esquerda, contudo, permanecia forte na virada do milênio. Conforme os países da América Latina foram elegendo presidentes mais preocupados com o social, o cubano ganhou uma espécie de posto de guru espiritual para líderes como Luiz Inácio Lula da Silva, Cristina Kirchner (Argentina), Rafael Corrêa (Equador), Evo Morales (Bolívia) e, especialmente, Hugo Chávez (Venezuela). Este, inclusive, ajudou a reanimar a economia cubana com troca de petróleo por médicos cubanos.

Dono de uma saúde de ferro, a situação de Fidel começou a piorar em 2006, quando enfrentou uma hemorragia intestinal durante uma viagem à Argentina. Em 31 de julho daquele ano, ele delegou temporariamente o poder a seu irmão Raúl. Em fevereiro de 2008, Fidel Castro renunciou oficialmente ao cargo de presidente cubano e, desde então, era o principal conselheiro do Partido Comunista e do novo governo.

Oficialmente, Fidel dizia apoiar as reformas econômicas de Raúl, como o restabelecimento das relações diplomáticas com os EUA, iniciado no fim de 2014. Todavia, ele deixava claro que não confiava nas intenções de seus vizinhos. Quando o presidente dos EUA, Barack Obama, reabriu a embaixada do país em Cuba, Fidel subiu o tom e acusou os norte-americanos de ignorarem as agressões que cometeram. “Não precisamos que o império nos dê nada de presente”, disse, sustentando que a ilha produzia tudo o que precisava.

REVOLUÇÃO CUBANA - No país dos revolucionários Emiliano Zapata e Pancho Villa, Fidel conheceu um médico argentino chamado Ernesto Guevara — que posteriormente seria imortalizado como Che Guevara, devido ao uso constante dessa expressão. Lá, eles reorganizaram o movimento, e, em 1956, retornam a Cuba com um ataque planejado. Mais uma vez, a ação fracassou, e os revoltosos se retiraram para Sierra Maestra, onde começaram uma guerra de guerrilha. A revolução cresceu, chegou a 10 mil pessoas e, em 1º de janeiro de 1959, triunfou, derrubando Fulgêncio Batista.

Logo depois que Fidel Castro tomou o poder, Estados Unidos e Cuba entraram em rota de colisão. O pano de fundo era a Guerra Fria, que dividiu o mundo em duas áreas de influência: uma capitalista no Ocidente, para o Estados Unidos, e outra, socialista e ao leste, para a União Soviética. Em 1960, começou a imposição de sanções e, em 1962, após Fidel declarar o caráter socialista da revolução, foi decretado o embargo econômico total.

O bloqueio suspendeu todas as importações e exportações e o estabelecimento de qualquer tipo de atividade econômica de americanos em Cuba. Calcula-se que, com o embargo, os prejuízos econômicos sofridos por Cuba possam ter chegado a US$ 1 trilhão.

Também ocorreram ataques mais diretos dos EUA. Em abril de 1961, o governo de John F. Kennedy promove a invasão da Baía dos Porcos com 1.400 cubanos financiados pela CIA. No entanto, a ofensiva é rapidamente derrubada. A instalação de uma base de lançamento da URSS na ilha caribenha gerou, em 1962, a crise dos mísseis, na qual os soviéticos e americanos ficaram a um passo de lançarem ataques militares uns aos outros. Além disso, Fidel Castro sofreu diversas tentativas de assassinato arquitetadas pelos norte-americanos.

Enquanto a União Soviética existia, Fidel conseguiu manter um padrão de vida razoável aos moradores da ilha. Ele criou sistemas públicos de educação e saúde que geram frutos até hoje. Com um novo método, o país extinguiu o analfabetismo, de acordo com a Unesco. Já o foco em medicina preventiva fez com que Cuba atingisse taxa de mortalidade infantil de 4,2 por mil nascidos vivos e expectativa de vida de 79,07 anos — índices melhores do que os dos EUA.

Contudo, o colapso da União Soviética em 1991 agravou, e muito, a situação do país. Os anos 90 foram especialmente duros, com os cubanos tendo que se alimentar de gatos e cavalos e reaproveitar itens descartáveis como isqueiros e desodorantes, como mostrou o jornalista Humberto Werneck em reportagem para a Playboy.

Foto: Brasil 247

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