Domingo, 09 Fevereiro 2020 17:14

Por que o medo causado pelo coronavírus é desproporcional

Escrito por DW

Outras doenças matam bem mais do que vírus registrado pela primeira vez em Wuhan, na China. Agitação atual se explica pelo temor natural diante daquilo que é novo, bem como pela atenção midiática, diz especialista.

O novo coronavírus 2019-nCoV domina as manchetes em todo o mundo desde que os primeiros casos foram registrados em Wuhan, na China, no fim do ano passado. Milhões de pessoas estão isoladas dentro de casa. A reação internacional foi rápida e muitas vezes injustificada. Asiáticos ou pessoas de descendência asiática foram vítimas de racismo em todo o mundo, incluindo o Brasil.

O quadro atual do surto de fato é assustador: já são mais de 30 mil casos confirmados e mais de 800 mortes neste domingo. Todas as mortes, exceto duas, ocorreram na China continental. "Isso ainda é a fase inicial", comentou o professor de virologia molecular Jonathan Ball, da Universidade de Nottingham.

Em epidemias anteriores, o número de casos também subiu rapidamente no início, mas se estabilizou ou caiu quando as medidas de prevenção começaram a fazer efeito e quando reuniu-se mais informação sobre os agentes patogênicos.

Num comunicado de 30 de janeiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) elogiou as medidas adotadas pela China e se mostrou otimista sobre a possibilidade de interromper a disseminação do vírus.

O interesse do público por surtos como o atual costuma ser extremamente desproporcional na comparação com doenças que são mais comuns e, portanto, bem mais perigosas. Por exemplo: em 2010 houve 684 milhões de casos de norovírus, e mais de 200 mil pessoas morreram. A dengue infecta mais de 100 milhões de pessoas todos os anos e, em 2017, matou mais de 40 mil.

Mesmo a tradicional gripe, para a qual existem vacinas disponíveis na maior parte do mundo, mata entre 300 mil e 650 mil pessoas todos os anos.

Não é possível estimar quantos casos de coronavírus haverá até o fim de 2020, mas é pouco provável que o novo vírus alcance essa magnitude.

"Coisas novas são mais assustadoras"

Ameaças sanitárias já conhecidas não costumam receber a mesma atenção da mídia que as novas. Isso ocorre justamente porque o coronavírus é novidade, comenta a especialista em cálculo de risco Miryam Jenny, da Universidade de Potsdam, na Alemanha.

"Coisas novas costumam ser bem mais assustadoras. Estamos acostumados com pessoas ficando doentes e morrendo todos os anos de gripe, mas o coronavírus é desconhecido, e as pessoas ainda não tiveram uma experiência com ele nem tiveram de lidar com essa incerteza", explica.

A atenção dada pela mídia não torna a situação melhor, comenta. "Falamos tanto sobre isso porque muitas pessoas estão com medo. E muitas pessoas estão com medo porque falamos tanto sobre isso."

Jenny diz que colocar os números de casos e mortes em perspectiva ajudaria, por exemplo os comparando com os riscos associados a beber e fumar, que muitas pessoas assumem de forma voluntária, todos os dias.

Além disso, muitas pessoas que foram infectadas pelo coronavírus talvez nem tenham percebido isso, pois, na maioria dos casos, o vírus apenas causa um resfriado.

Taxa de mortalidade superestimada?

A estimativa é de que 2% das pessoas que foram infectadas morreram em decorrência do vírus, e que a maioria delas integra grupos de maior vulnerabilidade, como idosos e pessoas que têm doenças sérias.

Como comparação: o surto de ebola, entre 2014 e 2016, matou quase a metade dos infectados. Quase a metade das pessoas infectadas pelo vírus da aids, o HIV (mais de 1 milhão por ano), morre, em muitos casos por não terem acesso ao tratamento.

É ainda possível que a atual taxa de mortalidade esteja superestimada, pois muitos casos de coronavírus nem sequer são registrados, observam pesquisadores e profissionais de saúde que trabalham no atendimento. As estatísticas refletem apenas os casos das pessoas que procuraram um médico ou hospital. Isso significa, também, que muitos casos de coronavírus evoluem de forma amena.

A taxa de mortalidade, junto com o nível de contágio, é uma importante parte do perfil de um vírus para os pesquisadores. No caso do novo coronavírus, a taxa básica de reprodução é de 2,5, o que significa que, em média, uma pessoa infecta de duas a três outras. Assim, ele é tão contagioso quanto o ebola, e bem menos do que o sarampo, cuja taxa de reprodução é de 9.

Declaração de emergência visa recursos

Os riscos oferecidos pelo novo coronavírus, principalmente fora do seu epicentro, são baixos em comparação com outras doenças. Isso é difícil de encaixar com termos como epidemia e emergência pública de saúde, que são usados por órgãos como a OMS.

Mas esses termos costumam estar relacionados com a mobilização de recursos, explica Jenny. "A Comissão Europeia, por exemplo, acabou de anunciar espontaneamente a disposição para financiar pesquisas sobre o coronavírus. Normalmente, esse processo levaria bem mais tempo."

A declaração de uma emergência pública de saúde dá à OMS acesso a fundos que só podem ser usados para emergências e permite que a organização adote medidas adicionais. Isso é necessário para impedir o vírus de continuar se espalhando e para apoiar nações mais pobres, que não têm uma infraestrutura de saúde adequada para lidar com situações como a atual.