Sábado, 01 Agosto 2020 13:09

CENTRÃO, CENTRO E CENTRINHOS

Escrito por GAUDÊNCIO TORQUATO

 

 

Com a saída do MDB e do DEM do Centrão, bloco até
então com 221 deputados, eles se tornam os pesos da
balança que vai pender para a situação ou para a oposição.
Permanecer no meio, brandindo o discurso de
independência, é conversa fiada. Uma eventual base
governista continuará sendo uma incerteza, eis que os
partidos agirão doravante sob a chancela do pragmatismo.
Conseguirá o governo construir sólida e duradoura
articulação com o Congresso?

O MDB e o DEM tenderão a avaliar o governo pelo
crivo da sociedade, coisa mapeada periodicamente e cujos
resultados, por sua vez, dependem da economia.
Recuperação restrita e lenta bafejarão a base oposicionista;
a recíproca é verdadeira. Se o Brasil voltar a impulsionar a
confiança de investidores, os investimentos, a taxa do PIB,
enfim, o produto nacional da felicidade bruta, terá
condições de voltar a enxergar Bolsonaro como principal
protagonista em 2022.
Mas o caminho até lá é longo. E só permite avançarmos
com projeções mais gerais, uma vez que ainda nem
sabemos quais figurantes entrarão no jogo. Comecemos
com o assunto do momento e que paira como foice da

morte sobre a cabeça de milhões de brasileiros: o Covid-
19. É provável que os efeitos catastróficos da pandemia

sejam sentidos até o final deste ano, mas é igualmente
razoável se pensar em pequenas ondas de vírus aparecendo
aqui e ali, continuando a gerar medo e angústia.
Sob essa teia de possibilidades, a política tende a
receber um voto mais crítico. Tanto nas eleições de

novembro próximo quanto em outubro de 2022. Por
conseguinte, os partidos procuram olhar com lupa o estado
d’alma da sociedade, examinando rumos, avaliando
probabilidades. Abramos mais pistas no tabuleiro. O
governo deve ampliar o cobertor social, reforçando-o com
o programa Renda Brasil a imagem positiva nas margens,
a partir do Nordeste, onde não foi bem votado em 2018 e
que agrega cerca de 28% dos votos do país.
Digamos que esse voto das margens seja repartido no
seio das classes sociais. Como agirão os contingentes
aboletados nas periferias das grandes cidades do Sudeste, a
partir de São Paulo, Estado que, sozinho, tem 46 milhões
de eleitores? Como serão os programas sociais para essas
massas? Há outro elemento decisivo a entrar no rol de
componentes: o voto das classes médias (média/alta,
média/média/e média/baixa). Não devemos esquecer a
famosa imagem da pedra jogada no meio do lago: as
marolas formadas correm até à beira da lagoa. As classes
C, D e E poderão ser influenciadas.

Nesse contingente que habita o meio da pirâmide, toma
vulto a expressão dos profissionais liberais, a maior tuba de
ressonância do Brasil, cujo discurso flui para baixo e para
cima, atingindo eleitores de todos os cantos da sociedade.
Nesse meio estão fontes qualificadas, porta-vozes,
difusores de mídias sociais, enfim, o núcleo que vocaliza
com mais força o pensamento social. Pois bem, as classes
médias, por volta de 50% da população (somava até mais
antes da pandemia), tendem a ser mais críticas em suas
avaliações, portando posicionamento de oposição ao status
quo.
Em suma, os centristas terão importância fundamental
no processo político em transição. Reforço esse termo -
transição - sob a crença de que não há condições sociais e
políticas de duas alas segurarem o cabo de guerra -
esquerda e direita -, ou seja, a polarização caminha para o
arrefecimento. O eleitorado está saturado de abordagens
mal educadas, palavras de baixo calão, querelas tomadas
pelo ódio. Espraia-se um sentimento de que o Brasil carece

de esforço suprapartidário para vencer as batalhas: a
sanitária, a econômica e a política.
Observa-se, ainda, que intensa organicidade se
desenvolve em todas as regiões. Por descrédito na política,
as pessoas procuram seus centros de referência -
associações, sindicatos, movimentos, grupos de ação
política. Significa dizer, em outras palavras, que milhares
de centrinhos sociais se formam, gerando novos polos de
poder.
Dito isto, infere-se que o Centrão, o bloco parlamentar
com 160 deputados, conhecido por ser muito fisiológico,
sob o aspecto do voto, não terá tanta força ante os
habitantes do centro da pirâmide e os centrinhos que se
organizam no país. O desenho dessa nova ordem tira a
força de negociatas que tratam de quarentenas para juízes,
no caso, uma quarentena de 8 anos para uma eventual
candidatura do juiz Sérgio Moro à Presidência da
República. Ora, deixem que o eleitor decida sobre isso, sem
travas burocráticas e impeditivas de candidaturas.

Se o Centrão firmar-se ao lado do presidente, levando
os votos do PL, PP, PSD, Solidariedade, PTB, PROS e
Avante, o governo conseguirá alívio para caminhar com
desenvoltura nos corredores congressuais, evitando
fantasmas que o assombram? Uma certeza: terá de redobrar
esforços para afastar horizontes sombrios que ameaçam a
elevação do Brasil no concerto das Nações.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político