Sábado, 21 Novembro 2020 14:30

LESMAS E CAMALEÕES EM MUTAÇÃO

Escrito por Gaudêncio Torquato

Quem sabe a semelhança entre a lesma e o camaleão?
Aparentemente, quase nada, a não ser o fato de que ambos
podem se arrastar pelo chão. Estudando atentamente as
qualidades desses dois animais, identifica-se em ambos
algo semelhante: a capacidade transformativa. O pequeno
molusco, atingido por uma camada de sal, derrete e se
transforma em água. O garboso lagarto, por sua vez, tem a
capacidade de vestir as cores do ambiente em que se
instala, saindo do verde das folhas para o marrom dos
galhos secos com a maior facilidade. (P.S. Criança, em

minha querida cidade de Luis Gomes-RN, eu sofria para
descobrir em que galho se escondia o camaleão na
tamarineira do saudoso comerciante Chico Pascoal. O
bicho se confundia com os galhos).
Pois bem, esses dois transformistas foram os principais
símbolos da campanha eleitoral, com centenas de
candidatos, saindo líquidos das urnas, atingidos pelo sal
grosso jogado pelo eleitor, enquanto outros, como
camaleões sabidos, ganharam solidez porque vestiram o
manto do momento, correndo atrás de um cidadão
indignado, mudando o modo de agir, de se comportar e até
tentando se desvincular de atos do passado e de perfis
rejeitados. Os extremos do arco ideológico foram pouco
acarinhados e o meio ocupado por gigantesco exército
camaleônico.
A performance transformativa de candidatos ganha
intensidade nesses dias que antecedem o segundo turno, até
porque a disputa será entre dois, com maior exposição
midiática e condições adequadas para o eleitor traçar
paralelos, comparar estilos, promessas e compromissos.

Pode-se prever candidatos negando feitos do passado,
outros construindo relações ambíguas e funestas para
adversários, patrocinadores tentando puxar seus afilhados
para a sombra da árvore governamental.
Façamos pequeno exercício do que tentam alguns
transformistas:
Bruno Covas tenta atrair votos conservadores e
evangélicos, mas fugindo de eventual colagem na figura do
presidente Bolsonaro. Sal neles, pensa Covas. Guilherme
Boulos, por sua vez, afasta-se daquela figura que liderava
os Sem Teto, invadindo propriedades, e agora tenta se
esconder nos galhos da floresta da moderação. Mas faz
campanha ao lado do PT, fato que acaba colando sua
imagem ao petismo, cuja rejeição em São Paulo é alta. Que
cor adotar? A cor da jovialidade, coragem, inovação,
mudança. Signos que atraem jovens, grupos das artes e da
cultura, eleitores racionais.
E que transformações serão necessárias ao PT?
Pergunta que angustia Lula, o manda-chuva; Gleisi, a
presidente da sigla e José Dirceu, que ainda veste o manto

de velho guerrilheiro. Como se viu, nessa campanha o PT
recebeu forte camada de sal grosso, que derreteu partes de
seu território eleitoral. Por isso, os maiorais do partido vão
buscar refúgio nas frentes da formação de líderes,
renovação de quadros, ensaios pela tangente ideológica.
Sofrerão com a tentativa de ressurreição da luta de classes,
resgate do refrão “a esperança venceu o medo” ou mesmo
a necessidade do Estado paquidérmico e gastador.
Bolsonaro e suas redes, incluindo o chamado gabinete
do ódio, continuam a fazer as contas de ganhos, perdas e
danos. Ganhos? Um aqui, outro ali. De mais de 70
candidatos com o sobrenome Bolsonaro, só o filho Carlos
se elegeu vereador, tendo boa votação, mas com 35 mil
votos a menos do que recebeu na campanha de 2016. Nem
sua mãe, Rogéria, foi eleita. As redes jogam sal na
campanha, insinuando fraude. Coisa de Trumpiniquim,
como diria o jornalista Eugênio Bucci. E como agir agora
no 2o turno? Bolsonaro não consegue tirar das mangas carta
milagrosa.

O governador João Doria continuará a se esconder nas
tamarineiras paulistanas, apenas no espaço eleitoral,
articulação combinada com Bruno. Mas descortinará o
amplo palco onde ocorrerá a vacinação em massa da
população, eis que os primeiros lotes da coronavac já
chegam a São Paulo. Vez ou outra despeja sobre Bolsonaro
um carga de sal em retribuição ao que o presidente lhe
manda.
Não são poucos os que olham para o poderoso (?)
ministro Paulo Guedes. Ele estaria mais para camaleão ou
para lesma? Para o primeiro, a não ser que a economia entre
em frangalhos e ele seja derretido pela cachoeira
presidencial. Espera em seu confessionário feridos e
vitoriosos, cada qual querendo aumentar sua fatia do bolo
orçamentário. Mas a preocupação do ministro é com seus
colegas gastadores.
Em suma, e agora, José, o que fazer? As lesmas que se
derretem diante do sal, perdendo identidade, serão
castigadas? E os camaleões políticos, que mudam de cor,
chegarão ao pódio do segundo turno?

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político