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Terça-feira, 23 de janeiro de 2018
1968 e o intolerável sofrimento humano

(*) Paulo Henrique Martinez No conjunto das experiências históricas concretas, na década de 1960, destaca-se com nitidez a percepção e a rejeição social ao sofrimento humano. Duas Guerras Mundiais aterrorizaram o mundo, na primeira metade do século XX, com a matança programada de grupos sociais e a destruição material sem precedentes na história. Esta cruel combinação atingiu o ápice na emblemática associação proporcionada pelas bombas atômicas e o seu lançamento pelos norte-americanos sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945. O cenário de dor e de sofrimento completava-se com o morticínio nos campos de batalha e o extermínio massivo e sistemático de ciganos, deficientes físicos, doentes mentais, homossexuais, judeus, militantes anarquistas, comunistas e socialistas nos campos de concentração e de trabalho forçado.

A paz não representou o fim das causas e de supostas e alegadas necessidades de sofrimento humano. Na década de 1960, o sofrimento humano tornara-se intolerável. No ano 1968, ele foi rechaçado com clareza, vigor e criatividade em diferentes partes do globo. De um lado, a tecnologia dos meios de comunicação e de transporte aproximaram países e pessoas. As visões do sofrimento humano foram conhecidas, registradas, reproduzidas e difundidas com maior escala, rapidez, intensidade e carga dramática. De outro lado, repórteres, cinegrafistas, fotógrafos, jornalistas, escritores, artistas, poetas, cantores, turistas, radialistas e publicitários varreram o mundo e alimentaram a opinião pública com imagens, alegorias, trabalhos artísticos, gestos, atitudes, frases, observações, comentários e testemunhos de situações sociais inaceitáveis, algumas,inimagináveis.

A intolerância ao sofrimento humano e a sua percepção em escala mundial deram impulso a sentimentos humanos universais, fortalecidos pelo senso de injustiça, o desejo de sua superação e a defesa de valores e atos humanitários. A Declaração Universal dos Direitos Humanos tornara evidente esta angústia no seio da Organização das Nações Unidas, já em 1948. Em escala regional, imagens e relatos da guerra no Vietnã, da pobreza na África, da discriminação racial nos EUA, da opressão às liberdades intelectuais no bloco soviético, do desemprego e dos danos à saúde nas sociedades industriais, da repressão e da tortura sob regimes ditatoriais na América Latina, surgiam como afronta. Em escala mundial, as constantes ameaças à paz e o risco da guerra nuclear, a explosão demográfica e a poluição do meio ambiente eram resultados incontestáveis da Guerra Fria e da interdependência econômica internacional.

A intolerância ao sofrimento humano e a sua percepção em escala mundial sugeriam uma erosão do futuro. A sua retomada requeria que o mundo fosse mais humanitário. E não só, tratava-se de alcançar este ideal aqui e agora, sem contar ou esperar pela iniciativa de empresários, de homens de negócios e de governos, entregues aos seus interesses lucrativos, particulares e de poder. Em pouco tempo elevou-se a temperatura política da condenação aos padrões de sociabilidade e aos valores da sociedade industrial e de suas estruturas políticas. Trabalhadores urbanos lesados em suas condições de vida e bem estar manifestaram-se em passeatas, greves e ocupações de fábricas. Estudantes lesados em seus sonhos, comportamentos e no acesso ao mercado de trabalho reuniram-se em assembleias, festivais culturais e ocuparam escolas, universidades e as ruas.

Condenada nos corações e mentes, a sociedade industrial exibia sinais de fadiga e de esgotamento. Os impactos sobre o meio ambiente, as consequências na vida urbana, na saúde humana e nas espécies silvestres, tornavam-se evidentes. Emergiam vínculos entre interesses econômicos e violações de direitos humanos, desenvolvimento industrial no hemisfério norte e subdesenvolvimento no hemisfério sul, ostentação e arrogância dos ricos, miséria e sofrimento dos pobres.

Em 1968, conscientes de seus interesses e necessidades imediatas e futuras, senhores do dinheiro, do poder e da cultura, avaliaram as perspectivas do mundo. O relatório Limites do crescimento apontava riscos e potencialidades de reprodução social da economia industrial. Por razões distintas daquelas que debatemos hoje, constatava-se a inviabilidade e a insustentabilidade, sem mudanças drásticas no padrão de crescimento econômico mundial. Este deveria ser “congelado”, logo, de impossível realização, ou arcaríamos com o ônus de seus limites estruturais. Vivemos, nos últimos cinquenta anos, sob os altos custos sociais e ambientais desta perseverança. O lançamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), pela ONU, em 2015, atesta o prolongamento histórico dos sofrimentos humanos, da dor e da angústia que acarretam em todo o planeta.

(*) Paulo Henrique Martinez, professor no Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Assis.

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