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Terça-feira, 19 de junho de 2018
Plantar mamão para colher batata

(*) Fernando Alves - Filho de peixe, peixinho é? Por óbvio que sim, entretanto por ser peixinho também, ele nadará melhor que os outros?

Com certeza que quando um filho se interessa pelo trabalho do pai, e este se dedica a ensiná-lo, o menino terá um tempo de aprendizado muito maior que as demais pessoas que também queiram atuar no ramo. O filho do agricultor que segue o pai pela lavoura, aprenderá todos os segredos dela, tal como o tempo certo de colheita, os mais eficientes meios de adubagem do solo, melhores métodos de negociação e com quem negociar, entre outras coisas.

No mesmo sentido, um médico cuja sua família seja de outros médicos, ganhará mais notoriedade e facilidade no campo da saúde, cabe dizer que o caminho já fora desbravado, e ele terá o GPS do sucesso e as certas companhias para guiá-lo. Diferentemente do jovem médico, sem uma linhagem familiar semelhante, deverá descobrir por si só o caminho para o mesmo sucesso, sem ter o “coach” de alguém tão intimo quando os problemas surgirem.

De maneira quase idêntica, o jovem advogado, fruto de uma família de outros advogados, repousa-se na confiança já conquistada pelos seus antecessores. Assim, mesmo que não possua muita experiência jurídica, atribuí-se uma confiança quase osmótica por causa da sua linhagem sanguínea. O que pode ser algo bom ou ruim. Quem, desde cedo vive num ambiente escolar profissional, de fato, sai à frente de outros que são lançados ao Deus dará.

No âmbito profissional, de carreira, o que já foi falado pode ser algo positivo ou negativo. No entanto, quando nos referimos à política, caberia dizer que essa lógica é valida? No inicio desse parágrafo, disse ‘âmbito profissional’, podemos dizer que a política é algo profissional, tal como ser advogado ou médico? Posso tornar a política numa carreira profissional? Mais do que isso, posso tornar a carreira profissional política em um ‘negócio’ familiar?

Uma coisa que eu acredito piamente é de que a política deve ser um lugar rotativo, portanto, de permanente mudança. Vejamos: o que muda se um candidato permanecer em um cargo por muito tempo? Um partido? Ou familiares?

Em uma manchete de agosto de 2017 do site Congresso em Foco, há um deputado estadual que está preparando um filho e um neto para sucedê-lo na Câmara. O deputado está em seu décimo mandato, fazendo parte da quinta geração da família presente na bancada. A família está marcando presença ali por cerca de 196 anos.

Segundo a Revista Congresso em Foco, 62% dos deputados 73% dos senadores possuem parentes na política. Logo, o Congresso, e a política como um todo, pode ter virado um negócio familiar. E isso não é um dado exclusivo do Congresso, não é muito difícil ver nos estados e municípios políticos que são parentes de outros.

Isso me preocupa muito, pois voltando ao que foi dito no início deste artigo. Um agricultor que foi educado pela família tende a ser um reflexo dela, sendo que foram eles seus referenciais mais próximos. Em outras palavras, o sucessor não herda apenas o capital, mas também reproduz as ideologias, a mentalidade de seus antecessores (pais, avôs). O modus operandi é o mesmo.

Em artigo publicado na Carta Capital em 2016 diz que mais de 50% dos políticos que estavam em seu primeiro mandato e na Câmara, herdaram o capital político familiar. Isso é o conservadorismo nu e cru, que tende a continuar do jeito que está. Há de se destacar que essas dinastias famílias ocupantes do poder advém de segmentos privilegiados da sociedade.

Mais longe ainda. Um candidato que possui ligações familiares com políticos, herda poder financeiro, marketing, contatos e muitas outras coisas que um candidato desconhecido não possui em sua candidatura. Por mais que suas ideias sejam revolucionárias, melhores, todavia pelo simples fato da sua ausência de apadrinhamento político, literalmente, já sairá em desvantagem. E o ciclo recomeça. Nada muda, ou quase nada muda porque quem mudou foi a capa do livro e não o conteúdo, ou sua história.

Segundo levantamento feito pela Transparência Brasil em 2014 acerca do tema, separando em regiões os parlamentares da Câmara temos: nordeste com 63% dos parlamentares com parentes políticos; 52% dos parlamentares do norte; 44% dos que vieram do centro-oeste; 44% dos eleitos no sudeste têm parentes no ramo; e 31% dos parlamentares sulistas. Ainda na Câmara, agora fazendo a divisão por partidos, 65% dos parlamentares do MDB, 60% dos deputados do PTB e SD possuem familiares na política.

O que podemos ver claramente é que existe uma oligarquia na política. No regime oligárquico, o poder é exercido por um pequeno grupo de pessoas, seja um grupo familiar, de classe ou partidário. Aqui, expus apenas o caso das famílias, mas há também as situações de apadrinhamento político. Exemplo claro disso é o caso de Lula e Dilma.

Resultado da obra: quem é rico continua rico; quem tem poder, continua no poder; e quem espera por mudanças, continua esperando por mudanças. Simples assim.

E a política torna-se uma carreira profissional, feita por profissionais políticos, perpetuando-se por dezenas de anos. Um negócio lucrativo que passa de pai para filho.

Claramente que isto é só uma reflexão. Nada contra aos parentes de políticos que querem se lançar, até porque vivemos numa democracia, e isso é um direito da pessoa, mas fico a pensar em como se daria uma renovação política em um cenário destes. Mais sério ainda é pensar que eleger “sangue” novo na política pode representar até uma nova distribuição de renda. A que ponto chegamos, ein motorista?

Colhemos o que plantamos, por isso estamos colhendo isso, o que temos aí na política. Não adianta plantar mamão esperando colher milho.

Ah, será que a lógica se aplica quando os pais não sabem votar? Filho de mau eleitor... Se os jovens são o futuro do país, e estão sendo ensinados a escolherem seus representantes do mesmo jeito que seus pais escolhem, só digo que não fumo, mas trago maus notícias.

(*) Fernando Alves é acadêmico de Direito, estagiário, além de escritor e poeta amador.

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