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 Segunda-feira, 21 de março de 2016

A CASA VEIO ABAIXO

0302 Gaudencio

A chamada para Lula da Silva assumir a Casa Civil é o reconhecimento cabal da presidente Dilma de que só mesmo seu tutor será capaz de garantir o trem da administração federal nos trilhos. Para cumprir a tarefa de evitar o descarrilamento dos vagões, que se mostram desengonçados, Lula exige: guinada na economia, com a receita populista de propiciar o consumo em massa e o acesso da população ao crédito; direcionar o trem para a esquerda e reconquistar o apoio dos movimentos sociais; esquecer a ideia de reformar a previdência e abrandar o ajuste fiscal; enfim, ele deseja reformular as diretrizes escolhidas por Dilma para seu segundo mandato.

A presidente promete poderes para Lula resgatar a imagem positiva do governo. Essa era a inflexão que se tinha até virem a público as gravações autorizadas de conversas entre a presidente e seu mestre e entre este e outros interlocutores. Ao dizer que estava enviando o emissário Messias com o Termo de Posse para Lula usar “só em caso de necessidade”, mesmo sem ter assinado o documento, a versão do Lula providencial foi substituída pela versão do Lula tentando driblar a justiça. Dilma lhe mandava um salvo conduto para se livrar de eventual pedido de prisão ordenada pelo juiz Sérgio Moro. O termo antecipado de posse é considerado por juristas como meio de obstrução da justiça. Ele se livraria de condenação na 1ª instância e subiria ao degrau do STF, que julga pessoas com foro privilegiado.

A volta do ex-presidente para o seu “terceiro mandato” ocorre, assim, sob uma teia de suspeitas, ainda mais quando sua linguagem rude arremete contra o Poder Judiciário (“acovardado”), o Legislativo (“acovardado”) os presidentes da Câmara e do Senado (brindados com termos chulos), a par de demandas nada republicanas. O ministro Lula sobe ao quarto andar do Palácio do Planalto sob o apupo da imensa maioria da população, que manifesta contrariedade contra ele, Dilma, o PT e, diga-se, outros protagonistas da velha política. Conseguirá ter sucesso na missão que encampa ou será alijado da cena política na esteira das graves denúncias que enchem seu roçado?

Para início de conversa, ainda não sentou na cadeira, pois há uma coleção de recursos contra sua ascensão ao cargo de ministro número 1. Terá de esperar. Lula põe lenha na fogueira da crise. Seu estoque de carisma de Lula se esvazia rapidamente. Impressiona a ocupação espontânea das ruas ao se ouvirem as gravações de suas conversas com interlocutores, com destaque para o breve diálogo com Dilma. Causam preocupações as ameaças de conflitos por parte de grupos contrários e favoráveis a ele e ao governo. Com os costados arrebentados e previsíveis confirmações das delações premiadas do senador Delcídio Amaral, do ex-deputado Pedro Correa, do PP, para quem Lula sabe de tudo desde o mensalão, e de mais delatores, Luiz Inácio não deverá escapar de julgamento na Corte Suprema. A pergunta emerge: por que ele tanto luta para ser julgado pelo STF? Talvez por considerar ter ali um acolhimento melhor que o da Corte de Curitiba. Afinal, de sua caneta saiu a nomeação de oito ministros do Supremo, entre os quais três ainda s e encontram na Casa (o presidente Ricardo Lewandovski, Carmen Lúcia e Dias Toffoli).

Não se engane, porém, o ex-presidente. O olho das ruas está atento. As operações em curso, desde o mensalão, acenderam os faróis da transparência e a sociedade organizada observa o que se passa no entorno dos Poderes. Cresce a sensação de que os magistrados não se deixarão levar por voto de agradecimento. Na quadra que se caracteriza pelo lema - “passar o Brasil a limpo” -, estreita-se a probabilidade do voto de retribuição. O que pode ocorrer é o prolongamento de eventual processo contra ele, eis que são longos os corredores da Justiça.

Nesse ínterim, tentará cumprir suas funções, a começar pela articulação política. Primeiro desafio: garantir os vagões do PMDB atrelados à locomotiva do governo. Conseguirá? Pouco provável. Em convenção, o partido decidiu dar 30 dias para desembarcar da administração federal. Antecipou essa decisão para o dia 29 próximo. Proibiu seus quadros de aceitar novos cargos no governo. Pois bem, o deputado Mauro Lopes, secretário do partido, quebrou o compromisso e assumiu a Secretaria da Aviação Civil. O VP, Michel Temer, não foi à sua posse. E foi acolhido pelo Conselho de Ética do PMDB, nesta sexta, pedido para punição do deputado. A cúpula partidária avisa: Lula não conseguirá demover o PMDB de sua decisão. Outros partidos também encenam o desembarque, como o PRB, PP e outros.

Na área política, Luiz Inácio, com toda a lábia, não terá sucesso, podendo segurar apenas algumas siglas que giram no entorno do PT. Na área econômica, a revolução que Lula quer fazer não dispõe de munição. Onde está o dinheiro para implantar a mesma receita de 2008 por ocasião da crise internacional? Injetar recursos para massificar o consumo? Quem vai produzir nesse clima de quebradeira, desemprego crescente, fechamento de fábricas e queda de confiança? A probabilidade de um programa que tire a economia rapidamente do fundo do poço é zero. Os ajustes tão cantados só gerarão resultados no longo prazo. Sustar a reforma da Previdência por desagradar a militância petista é sinal de que o governo continuará patinando.

Economia afundando, política efervescendo, massas nas ruas pedindo mudanças, impeachment correndo (em 15 sessões será liquidado na Câmara), delações jorrando, condenações em série, o que esperar? O descarrilamento do trem. Não há mais condições técnicas e políticas para a continuidade do governo Dilma. Só alguns cegos não querem enxergar. O ciclo do PT chega ao fim. Pode, até, haver alguma sobrevida. Apenas atrasará as mudanças que a sociedade clama. Urge instalar um governo de união nacional, com o apoio de partidos políticos e a participação das organizações sociais. Esgota-se a era do apartheid social. O muro que separa “nós e eles” precisa ser derrubado.

 

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