1º jornal 100% online de Roraima desde 2014

Acervo | Assine | Anuncie 

OS OPORTUNISTAS

Crise, no ideograma japonês, tem o mesmo significado
de oportunidade. Donde se extrai a ideia de que as crises
deveriam abrir novos caminhos, oferecer soluções criativas
aos problemas. Esta tem sido a lição de empreendedores,
perfis de visão sobre os afazeres do cotidiano,
principalmente no que se refere ao mundo dos negócios.
Entre nós, é bastante propalado o ditado “fazer do limão
uma limonada”, transformar o que é negativo em positivo,
sair da tempestade para a bonança.

Para muitos povos, o preceito funciona bem, graças a
uma cultura forjada em experiências sofridas, tempos
amargos, carências monumentais, para as quais se criaram
respostas e alternativas, muitas exigindo sacrifícios e
mudança em estilos de vida. Conta-se, por exemplo, que o
japonês, de tanto padecer as agruras de guerras, não
costuma deixar sobras no prato. Um último grão de arroz
na bacia é agarrado com vontade e gosto pelos dois
pauzinhos manejados com mestria. Os anglo-saxões
também aprendem a não desperdiçar tempo. E a responder
sim ou não, em atendimento a uma equação que não
permite dar uma resposta sem responder.

Já o talvez, mais ou menos, quem sabe, se encaixam
bem em nossa cultura, onde a exatidão não passa pelo teste,
a concisão costuma seguir veredas sinuosas, de curvas e
buracos. Em Petrolina, até hoje, não se encontrou uma gota
de petróleo e a venerada Bahia de Todos os Santos, sob o
olhar complacente de Jorge Amado, tem mais jeito de baia
de todos os pecados. O senhor é católico”? “Sim, mas não

vou à missa aos domingos”. “Quantas horas o senhor
trabalha por semana?”. “Mais ou menos umas 40 horas”.

A flexibilidade é um traço do nosso caráter, aliás, um
valor positivo, mas usado para “amaciar” situações. Do
trabalho duro muitos fogem. É comum se ouvir: “hoje,
trabalhei demais; estou arrebentado”. Nosso DNA é
cultivado na festa, no divertimento. O gordo Ascenso
Ferreira, poeta pernambucano, parodiava: “Hora de comer
– comer. Hora de dormir- dormir. Hora de vadiar – vadiar.
Hora de trabalhar? Pernas pro ar que ninguém é de
ferro”. O chiste corre solto. Vejam o discurso do
brigadeiro Eduardo Gomes, no largo da Carioca, em seu
primeiro comício da campanha presidencial de
1946. “Brasileiros, precisamos trabalhar”. Do meio do
povão, uma voz gritou: “Ih, começou a perseguição”.
Bagunça geral no comício.

O fato é que a flexibilidade e a expressão jocosa
impregnam a índole brasileira, conforme nos ensina um
analista de nossa alma, Roberto DaMatta. Não por acaso,

nesse momento de pico da pandemia, com ondas que
matam milhares de brasileiros de todas as idades, ainda se
criam piadas envolvendo protagonistas diversos, a partir
dos governantes. Alguns ganham apelidos e trocadilhos
infames e risíveis. Como uma gente que aprecia tanto a
galhofa pode tomar atitudes racionais, sérias, adotar
comportamentos condizentes com a gravidade desse
momento?

Esclareçamos. A comunidade nacional costuma entrar
no terreno da expressão desrespeitosa quando se sente
ludibriada. Mas essa corrente é alimentada por um grupo
que invade as redes sociais para exacerbar o
comportamento social. Motivam leitores e ouvintes a
privilegiar o impropério. Mais: os protagonistas políticos
se aproveitam do clima para cantar hosanas e adornar seu
ego, ampliando a visibilidade, emitindo opiniões
estapafúrdias, enfim, tentando compor uma identidade que
não possuem.

Alguns são capazes de mudar de visão quando
convidados a aparecer em programas de rádio e TV, de alta
audiência. Participam de debates para aparecer, dar recados
ao eleitor, pronunciando-se a favor ou contra, porém
sempre com o sentido de fazer marketing. A polarização de
ideias não se ampara em bases racionais, mas emotivas,
frouxas, com carimbo populista. O representante quer ser
popular.

Esse vício joga os políticos no lodaçal do oportunismo.
Nesse ponto, voltemos ao início do texto. Não se faz da
crise um exercício de busca de oportunidades, mas uma
chance para oportunistas marcarem seus nomes na história.
Esquecem, porém, que exibem na testa a marca de
medíocres, figuras de baixa expressão, mercadores de
benefícios e recompensas. A dignidade não os conhece.

Do escritor argentino José Ingenieros, em O Homem
Medíocre: "Ser digno significa não pedir o que se merece:
nem aceitar o imerecido. Enquanto os servis sobem, por

entre as malhas do favoritismo, os austeros ascendem pela
escadaria das suas virtudes”.

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político