Eubulides, aluno de Euclides, o matemático de
Alexandria, no Egito, também conhecido como pai da
Geometria, marca presença em nossa árida paisagem
institucional. Ele criou o “paradoxo do mentiroso”, que tem
sido lume de bandas adversárias na arena política,
impulsionando seus ditos, benditos e malditos, mentiras e
versões.
Vamos lá: se alguém - parlamentar, governante,
ministro, ex-ministro - disser “essa afirmação é falsa”,
tende a criar grande confusão, porque um paradoxo se
forma na cabeça dos ouvintes. Se a afirmação for falsa,
então o dito do emissor é verdadeiro, pois foi exatamente o
que ele disse. Mas se ele falou uma grande verdade, a
afirmação será falsa, porque ele garantiu que era falsa.
Donde se conclui que se é falsa, a afirmação do orador é
verdadeira; e se é verdadeira, segue-se que a afirmação é
falsa. Lógica simples.
Os argumentos usados pelos integrantes da CPI da
Covid 19 dão margem a que, uns e outros, ancorados em
afirmações falsas e verdadeiras, mudem de posição a todo
momento, trocando com grande desembaraço os papéis de
bandidos e mocinhos. Como o palco da crise sanitária
ganha, via trombeta midiática, novos capítulos recheados
de mortes, contaminados e projeções de uma terceira onda,
aqui e alhures, infere-se que a má gestão da pandemia fica
no território dos agentes do mal, enquanto combatentes da
oposição lutam na arena do bem. Por isso, é visível na CPI
o favoritismo dos oradores contrários ao negacionismo que
corrói a imagem do governo.
A dúvida que persiste é sobre o que poderá ocorrer com
os depoentes convocados a oferecer suas versões na CPI, a
partir do afamado, mas não tão proclamado, general da
ativa, Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde. O que
ocorrerá em seu terceiro depoimento? Se cair em mentira,
será preso como promete o presidente da Comissão,
senador Omar Aziz? E, ao final, que tipo de decisão será
dada em relação ao presidente Jair Bolsonaro? Não se
descarta a hipótese de que as escaramuças no ambiente
investigatório poderão dar n’água, algo como a batalha de
Itararé, aquela que não houve, ou uma “vitória de Pirro”,
aquele evento em que o rei de Épiro, na batalha de Ásculo
(279 a.C), mesmo vitorioso, perdeu o que restava de suas
tropas.
O fato é que cada protagonista da política quer aparecer
como vitorioso. E corajoso. Luta para impor sua verdade,
esforço que ganhará intensidade à medida em que se
aproxima o ano eleitoral. Afinal, no Estado-Espetáculo, os
atores sabem que a lei da visibilidade recomenda aparecer
de qualquer maneira, sob a fosforescência dos meios de
comunicação e, agora, das redes sociais.
A lição que aprendem com rapidez é a do Breviário dos
Políticos, do preceptor de Luís XIV, o cardeal Mazarino,
onde se leem estes conselhos: “Simula, dissimula. Mostra-
te amigo de todo mundo, conversa com todo mundo,
inclusive com aqueles que odeias; eles te ensinarão a
circunspeção... quando tiveres que escolher entre duas
vias de ação, prefere a facilidade à grandeza com todos os
aborrecimentos que ela comporta. Não confies em
ninguém. Quando alguém fala bem de ti, podes estar certo
de que ele te escarnece. O velhaco manifesta-se ora a favor
ora contra o mesmo assunto, dependendo das
circunstâncias. Os amigos não existem, há apenas pessoas
que fingem amizade”.
A base amoral da política se alarga em todos os
quadrantes do planeta, mesmo que estejamos vivenciando
um ciclo de maior transparência e elevação da cidadania.
Ocorre que as malhas intestinas do Estado, por maior que
sejam os controles – Ministério Público, Polícia Federal,
Tribunal de Contas da União, Advocacia Geral da União,
Tribunais de Contas de Estados e Municípios – continuam
como berço predileto das gangues da corrupção, formadas
sob o triângulo composto pela burocracia, a esfera política
e os círculos de negócios. A corrupção diminuiu? É
possível, mas as ferramentas tecnológicas, contábeis e
administrativas também são usadas pelo “poder invisível”.
A roubalheira pode ter diminuído, mas ainda é uma praga.
Ganhou técnicas sofisticadas.
Nem por isso podemos desistir de ver o país restaurado,
recuperado, resgatado. Precisamos sempre ter em mente
a grandeza da Nação, representada por seus valores: o
sentimento de pátria, a fé e a crença do povo, o sentido de
família, o culto às tradições e aos costumes, o respeito aos
velhos, o amor às crianças, o cumprimento da lei, o culto à
liberdade, a chama cívica que faz correr nas veias dos
cidadãos o orgulho pela terra onde nasceram.
Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político
