1º jornal 100% online de Roraima desde 2014

Acervo | Assine | Anuncie 

A VIDA É BREVE

Sêneca, o filósofo que nasceu em Córdova, na Espanha,
no ano I a.C, alertava: “não é curto o tempo que temos, mas
dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com
generosidade nos foi dada, para a realização das maiores
coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no
luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada
de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade,
sentimos que já passou por nós sem que tivéssemos
percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida

breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas
esbanjadores”.

Motivo-me, mais uma vez, a deixar de lado a análise
política, tarefa cumprida na minha coluna semanal
Porandubas, no site Migalhas, para percorrer o labirinto da
consciência e tentar ver como deixei a vida passar sem ter
percebido. E o que me leva a esse exercício? A sensação de
que, no meio (ou ainda no início?) do furacão
desencadeado por esse medonho Covid-19, a vida pode me
escapar num átimo de segundo, a mostrar que a eternidade
está ali, a um palmo na nossa frente.

E como tenho percebido os dribles que, em alguns
momentos, me fazem pensar que continuo portando o vigor
da adolescência, a capacidade mimética de me adaptar aos
sabores e dissabores da vida? É fácil constatar. Basta ir ao
espelho e ver que o tufo de cabelo encompridando a cabeça
deu adeus, criando duas entradas profundas na testa e
abrindo uma seca várzea no cocuruto. Ainda bem que a
carequice não tem avançado.

Fossem essas observações estéticas as únicas maneiras
de constatar que a adolescência se escondeu no baú de
memórias, os sentimentos não seriam tão doloridos. Mas
há vazios mais profundos. A percepção de que eu poderia
ter conversado mais com meu pai, que nasceu no final do
final do século XIX, foi autodidata, político, fazendeiro e,
sobretudo, uma pessoa que acolhia bem os mais carentes.
O silêncio estava ali ao nosso redor, mesmo que ele tivesse
mil perguntas a fazer ao filho que só o via nas férias. Podia
ter aprendido mais com ele naqueles tempos de muito
trabalho, honra à palavra dada, compromisso com a
verdade, zelo pelas coisas. Meu pai amolava a gilete com
que se barbeava numa pedra sabão. Objeto descartável?
Jamais teve conhecimento.

A amizade é a cola da fraternidade e da solidariedade.
Os amigos fazem brotar os valores do compartilhamento e
de uma sociedade mais convivencial. E o que ficou deles?
A distância física quebra elos, a rotina do cotidiano com
muito trabalho cria oceanos entre os amigos, os laços de

amizade vão se esgarçando e se desmanchando. Percebo
que deixei a vida se esvair por essas frestas de
distanciamento, ao cortar contatos, ao esquecer nossos
caminhos encruzilhados no passado, ao entrar na corrida
pela competitividade, reconhecendo que essas decisões
podem ter corroído a humanidade que nos habita.

“Olhe a régua, olhe a régua”, sempre nos alertava o
amigo Vanderlei, famoso neurocirurgião, natural da
Paraíba e hoje também habitante destas plagas paulistas. E
mostrava: até aqui, a régua marca 50, apontando para o
meio. Quando passa daqui, a régua costuma apressar o
tempo. Pois não é que me lembro dessa régua quase todos
os dias e vejo que o tempo corre? A vida é mesmo breve.
Parece que o alerta da régua foi ontem. Mas faz mais de
duas décadas. O que deixei mais de fazer?

Ler mais. Sou um bom leitor de livros. Mas poderia ter
usado o tempo com mais leituras, mais reflexões. E a
escrita? Ah, nessa área, sob minha absoluta crença, tenho
feito o possível. A ponto de ser cobrado com juros e

correção monetária pelo exercício de ficar horas e horas à
frente de um teclado de computador ou, nos idos de ontem,
teclando numa velha máquina de escrever. E que juros são
esses? Uma coluna arrebentada, com achatamento e
compressão de vértebras, dores nas articulações, enfim,
essa herança transmitida por ficar sentado numa cadeira o
dia inteiro.

Constrangido pela fatalidade, como diz o puxão de
orelhas de Sêneca, sinto que poderia ter sido mais
comedido, com o bom senso de alternar os movimentos do
corpo. As coisas ruins se passaram sem que tivesse
percebido ou, mesmo percebidas, foram continuadas.

Talvez seja por isso que os velhos álbuns do passado
tenham hoje tanta significação. Pois permitem que vejamos
nossos corpos sem barrigas salientes, mais apolíneos e
menos dionisíacos, tufo de cabelo na testa e sem jamais
imaginar que, um dia, o danadinho de um vírus fosse capaz
de atazanar nossas vidas.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor politico